A desidratação é uma das emergências pediátricas mais comuns, sendo a principal complicação das diarreias agudas — que ainda representam uma causa significativa de morbidade e mortalidade infantil no Brasil e no mundo. A avaliação rápida e o manejo adequado são habilidades essenciais para todo pediatra e profissional de saúde que atende crianças.
Classificação da Desidratação
A classificação mais utilizada na prática clínica brasileira é a do Ministério da Saúde / OMS, baseada em sinais clínicos:
| Sinal | Sem desidratação | Alguma desidratação | Desidratação grave |
|---|---|---|---|
| Perda de peso estimada | < 3% | 3-9% | > 9% |
| Estado geral | Bem, alerta | Irritado, inquieto | Letárgico, inconsciente |
| Olhos | Normais | Fundos | Muito fundos, sem lágrimas |
| Lágrimas | Presentes | Diminuídas | Ausentes |
| Boca e língua | Úmidas | Secas | Muito secas |
| Sede | Normal | Sedento, bebe avidamente | Bebe mal ou não consegue |
| Sinal da prega | Normal | Lenta (< 2s) | Muito lenta (> 2s) |
| Pulso | Cheio | Rápido | Rápido, fraco ou ausente |
| Enchimento capilar | < 2 segundos | 2-3 segundos | > 3 segundos |
| Fontanela (lactente) | Normal | Deprimida | Muito deprimida |
| Diurese | Normal | Diminuída | Ausente por horas |
Classificação por Tipo (Osmolaridade)
- Isotônica (Na 130-150 mEq/L): a mais comum (80% dos casos). Perda proporcional de água e sódio.
- Hipotônica (Na < 130 mEq/L): maior depleção de sódio. Risco de edema cerebral na correção rápida.
- Hipertônica (Na > 150 mEq/L): maior perda de água livre. Correção deve ser lenta (reduzir Na ≤ 0,5 mEq/L/h) para evitar edema cerebral.
Cálculo da Hidratação de Manutenção (Holliday-Segar)
A regra de Holliday-Segar calcula a necessidade hídrica de manutenção:
| Faixa de peso | Volume |
|---|---|
| Até 10 kg | 100 ml/kg/dia |
| 10-20 kg | 1000 ml + 50 ml/kg acima de 10 kg |
| Acima de 20 kg | 1500 ml + 20 ml/kg acima de 20 kg |
Use nossa calculadora de hidratação pediátrica para fazer o cálculo automaticamente.
Planos de Tratamento (OMS / MS)
Plano A — Sem desidratação
- Manter alimentação habitual (incluindo amamentação)
- Oferecer líquidos em maior quantidade que o habitual
- SRO após cada evacuação líquida: <1 ano: 50-100 ml; 1-10 anos: 100-200 ml
- Sinais de alerta para retorno: piora da diarreia, vômitos repetidos, muita sede, recusa alimentar, sangue nas fezes, diminuição da diurese
Plano B — Alguma desidratação (TRO supervisionada)
- SRO: 50-100 ml/kg em 4-6 horas (via oral, em pequenos volumes frequentes)
- Administrar em colher ou copo (evitar mamadeira)
- Suspender alimentos sólidos durante a fase de reidratação
- Manter amamentação mesmo durante TRO
- Se vomitar: esperar 10 minutos e reiniciar em volumes menores
- Reavaliar em 4-6 horas: se hidratado → Plano A; se igual → repetir Plano B; se piorou → Plano C
Plano C — Desidratação grave (Hidratação venosa)
- Fase de expansão: SF 0,9% 20 ml/kg em bolus (correr em 20-30 min). Repetir até 3x se necessário, reavaliando entre cada bolus.
- Fase de manutenção: SG 5% + SF 0,9% (proporção 4:1 ou 3:1 conforme protocolo institucional) no volume de Holliday-Segar.
- Reposição de perdas: estimar perdas continuadas (50-100 ml/kg/dia em diarreia ativa) e repor adicionalmente.
- Eletrólitos: adicionar KCl 10% (1-2 mEq/kg/dia) após diurese e verificar Na, K, gasometria.
- Monitorizar: diurese, peso, sinais vitais, consciência.
Quando Usar TRO vs. Hidratação Venosa
| TRO (via oral) | Hidratação venosa |
|---|---|
| Desidratação leve a moderada | Desidratação grave |
| Criança aceita via oral | Vômitos incoercíveis |
| Sem sinais de choque | Choque hipovolêmico |
| Consciente e alerta | Rebaixamento da consciência |
| Sem distensão abdominal | Íleo paralítico / abdome cirúrgico |
Princípio fundamental: a TRO é tão eficaz quanto a hidratação venosa para desidratação leve-moderada, com menos complicações. A OMS e a SBP recomendam sempre tentar TRO antes da via venosa quando possível.
Solução de Reidratação Oral (SRO)
A SRO de osmolaridade reduzida (OMS 2002) é a formulação recomendada:
| Componente | Concentração |
|---|---|
| Sódio | 75 mEq/L |
| Potássio | 20 mEq/L |
| Cloro | 65 mEq/L |
| Citrato | 10 mmol/L |
| Glicose | 75 mmol/L |
| Osmolaridade total | 245 mOsm/L |
Complicações da Desidratação
- Choque hipovolêmico: complicação mais grave. Hipotensão, taquicardia, enchimento capilar lento, oligúria.
- Insuficiência renal aguda: pré-renal, por hipovolemia. Geralmente reversível com reidratação.
- Distúrbios eletrolíticos: hipocalemia, hiponatremia, acidose metabólica.
- Convulsões: principalmente na desidratação hipernatrêmica ou na correção rápida de hiponatremia.
- Trombose venosa: rara, mas possível em desidratação grave com hemoconcentração.
Referências
- WHO. The Treatment of Diarrhoea: A Manual for Physicians and Other Senior Health Workers. 4th rev., 2005.
- Ministério da Saúde. Manejo do Paciente com Diarreia. Cadernos de Atenção Básica, 2017.
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Guia Prático de Atualização: Diarreia Aguda. 2017.
- Holliday MA, Segar WE. The maintenance need for water in parenteral fluid therapy. Pediatrics. 1957.
Use nossa Calculadora de Hidratação Pediátrica para obter o volume de manutenção pelo Holliday-Segar.
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As informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem protocolos institucionais ou avaliação clínica individualizada.