O puerpério é cercado de opiniões, palpites e crenças que passam de geração em geração. "Não pode pintar o cabelo." "Não pode tomar café." "Tem que esperar 40 dias para tudo." Mas o que dizem as evidências médicas atuais? Neste artigo, separamos os mitos das verdades — sempre com a ressalva de que a última palavra é sempre do seu médico, que conhece o seu caso individual.
Cada tópico abaixo traz o que os consensos médicos gerais dizem, mas tenha sempre em mente: puerpério não é receita de bolo. O que vale para uma mãe pode não valer para outra.
1. Pintar o cabelo no puerpério
CONSULTE SEU MÉDICO — A resposta curta é: depende. De forma geral, a maioria dos dermatologistas e obstetras considera que a coloração capilar é segura após os primeiros 3 meses pós-parto, especialmente se a mãe já passou pelo pico de queda de cabelo fisiológica (eflúvio telógeno). Porém, há nuances:
- Tinturas sem amônia e técnicas que não tocam o couro cabeludo (como mechas e balayage) são geralmente consideradas mais seguras.
- A absorção sistêmica de corantes capilares pelo couro cabeludo é mínima, segundo estudos publicados no Journal of the American Academy of Dermatology.
- Se você está amamentando, converse com seu médico sobre os produtos específicos que pretende usar.
- Evite procedimentos agressivos (descoloração forte, alisamentos com formol) sem orientação.
Fonte: FEBRASGO — Dermatoses na gestação e puerpério; ACOG Committee Opinion.
2. Pintar as unhas no puerpério
Geralmente seguro. Não há contraindicação médica para usar esmalte de unhas durante o puerpério. Esmaltes convencionais são aplicados externamente e a absorção sistêmica é desprezível.
- Prefira ambientes bem ventilados para evitar inalação de solventes.
- Se possível, opte por esmaltes livres de formaldeído, tolueno e DBP (os chamados "3-free" ou "5-free").
- Atenção com unhas de gel/acrigel: o processo envolve substâncias químicas voláteis — faça em local ventilado.
- Lave bem as mãos antes de pegar o bebê após aplicar esmalte.
Fonte: ACOG — Exposure to Toxic Environmental Agents, 2021.
3. Fazer exercícios físicos no puerpério
Depende do tipo de parto — geralmente após 6-8 semanas com liberação médica.
- Parto normal sem complicações: caminhadas leves podem ser iniciadas já nas primeiras semanas, conforme tolerância. Exercícios moderados geralmente são liberados após 4-6 semanas, com aval médico.
- Cesárea: a recuperação é de uma cirurgia abdominal. A maioria dos obstetras libera exercícios leves após 6-8 semanas, após avaliar a cicatrização.
- Exercícios de assoalho pélvico (Kegel): geralmente podem ser iniciados precocemente — converse com seu médico ou fisioterapeuta pélvica.
- Exercícios de alta intensidade, abdominais tradicionais e corrida: somente após avaliação médica e, idealmente, avaliação do assoalho pélvico por fisioterapeuta especializada.
- A diástase abdominal (separação dos músculos retos abdominais) é comum no pós-parto e precisa ser avaliada antes de iniciar abdominais.
Fonte: ACOG Committee Opinion No. 804: Physical Activity and Exercise During Pregnancy and the Postpartum Period, 2020; FEBRASGO.
4. Tomar café amamentando
Com moderação — até 300 mg de cafeína/dia é considerado seguro pela maioria dos estudos.
- 300 mg equivale a aproximadamente 2-3 xícaras de café coado por dia.
- A cafeína passa para o leite materno em pequenas quantidades (cerca de 1% da dose materna).
- Bebês metabolizam cafeína mais lentamente que adultos, especialmente recém-nascidos. O efeito cumulativo pode causar irritabilidade e dificuldade para dormir.
- Se você perceber que o bebê fica mais inquieto ou dorme menos nos dias em que toma mais café, considere reduzir.
- Lembre-se que cafeína não está só no café: chá preto, chá verde, chá mate, chocolate, refrigerante de cola e energéticos também contêm cafeína.
Fonte: LactMed — Caffeine, National Library of Medicine; ABM Clinical Protocol; SBP — Aleitamento Materno.
5. Comer de tudo amamentando
A maioria dos alimentos é segura — poucos precisam ser evitados.
- Não existe lista rígida de "alimentos proibidos" para lactantes. A dieta deve ser variada e equilibrada.
- Bebidas alcoólicas devem ser evitadas ou consumidas com extrema cautela — o álcool passa para o leite materno. Se optar por consumir, espere pelo menos 2 horas por dose antes de amamentar.
- Peixes com alto teor de mercúrio (cação, peixe-espada) devem ser limitados.
- O mito de que "chocolate dá cólica no bebê" ou "feijão dá gases no bebê" não tem base científica forte. Os gases da mãe não passam para o leite.
- Em casos específicos de alergia à proteína do leite de vaca (APLV) confirmada no bebê, o médico pode orientar a mãe a excluir laticínios da dieta. Isso deve ser feito apenas com orientação médica.
- Para a amamentação exclusiva, o mais importante é que a mãe se alimente bem e se hidrate adequadamente.
Fonte: SBP — Manual de Aleitamento Materno; ACOG; ABM.
6. Banho de banheira ou piscina no puerpério
Geralmente após cicatrização completa — 2 a 6 semanas dependendo do parto.
- Banho de chuveiro pode ser tomado normalmente desde o primeiro dia pós-parto.
- Banho de imersão (banheira, piscina, mar): a recomendação geral é esperar o fechamento completo do colo do útero e a cicatrização de eventuais lesões, para evitar infecção.
- Parto normal com episiotomia: geralmente 2-3 semanas até a cicatrização.
- Cesárea: geralmente 4-6 semanas, após cicatrização da incisão cirúrgica.
- A loquiação (sangramento pós-parto) ainda está presente nas primeiras semanas e indica que o útero ainda está em recuperação — banhos de imersão devem ser evitados nesse período.
- Piscinas com cloro e mar possuem riscos adicionais de irritação e infecção enquanto há ferida aberta.
Fonte: FEBRASGO — Puerpério Normal e Patológico; ACOG Postpartum Care Guidelines.
7. Relação sexual no puerpério
Quando se sentir confortável + liberação médica — geralmente após 40 dias.
- A recomendação tradicional dos "quarentena" (40 dias) existe para aguardar a involução uterina e a cicatrização de possíveis lesões.
- Na prática, o prazo varia: após parto normal sem complicações, algumas mulheres se sentem prontas antes dos 40 dias; após cesárea ou episiotomia, pode levar mais tempo.
- É essencial que a retomada seja baseada no conforto da mulher — tanto físico quanto emocional.
- Secura vaginal é comum no puerpério (especialmente durante a amamentação) devido à queda de estrogênio. Lubrificantes à base de água podem ajudar.
- Contracepção: a amamentação exclusiva em livre demanda (LAM) oferece proteção parcial nos primeiros 6 meses, mas não é 100% segura. Converse com seu médico sobre métodos contraceptivos compatíveis com a amamentação.
- Dor persistente durante a relação (dispareunia) merece avaliação médica — pode indicar problemas na cicatrização ou necessidade de fisioterapia pélvica.
Fonte: FEBRASGO — Assistência ao Puerpério; ACOG Committee Opinion.
8. Dirigir no puerpério
Depende do tipo de parto — cesárea geralmente 4-6 semanas.
- Parto normal sem complicações: não há restrição legal para dirigir. A limitação é prática — se a mãe se sentir confortável, com reflexos normais e sem uso de medicações que afetem a atenção, pode dirigir quando se sentir pronta (geralmente 1-2 semanas).
- Cesárea: a recomendação médica geral é aguardar 4-6 semanas. A preocupação é com a capacidade de frear com força em uma emergência, pois a contração abdominal pode causar dor e comprometer o reflexo.
- Verifique com seu seguro de automóvel se há alguma cláusula relacionada a períodos pós-cirúrgicos.
- Medicações: se estiver usando analgésicos opioides ou qualquer medicação que cause sonolência, NÃO dirija.
Fonte: ACOG FAQ — Recovery After Cesarean Birth; FEBRASGO.
O puerpério é desafiador, mas você não precisa passar por ele sem apoio. Use o Canjiquinha para organizar a rotina do bebê — mamadas, sono, fraldas — e libere espaço mental para cuidar de você também.
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As informações deste artigo têm caráter educativo e foram baseadas em diretrizes da FEBRASGO, SBP e ACOG. Sempre consulte seu médico.